Angústia, Ansiedade e Medo na Realidade Percebida

 É entendido que a ansiedade é um sinal de alerta, que adverte sobre perigos iminentes a fim de capacitar o indivíduo a tomar medidas para enfrentar ameaças.

O medo é a resposta a uma ameaça conhecida, definida; já a ansiedade é uma resposta a uma ameaça desconhecida, vaga, ou mesmo imaginária. A ansiedade prepara o indivíduo para lidar com situações potencialmente danosas, como punições ou privações, ou qualquer ameaça à unidade ou integridade pessoal, tanto física como moral. Desta forma, a ansiedade prepara o corpo e a mente a tomar as medidas necessárias para impedir a concretização desses possíveis prejuízos, ou pelo menos diminuir suas conseqüências. Portanto a ansiedade é uma reação natural e necessária para a auto-preservação. Não é um estado normal, mas é uma reação normal e necessária para a sobrevivência.

A ansiedade e o medo são velhos conhecidos da humanidade, desde os tempos mais remotos.

Porém a ansiedade generalizada na realidade contemporânea talvez não seja apenas um indicador da competitividade, da falta de tempo e da agitação do dia a dia. É também um indicador da desumanização do indivíduo quando inserido no contexto da sociedade contemporânea, em que é notável o crescente aumento de incidências de casos de ataques de ansiedade e crises de pânico na população em geral. Freud entre outros já apontou o problema em seu “Mal Estar na Civilização” sob um ponto de vista a meu ver, vindo de Schopenhauer em “O Mundo como Vontade e Representação”.

Zygmunt Bauman também discursa sobre o status quo vigente em “Vida para Consumo”, entre outras obras de teor semelhante (fica a recomendação de leitura).

Talvez também tal ansiedade seja fruto de uma constante política do medo, na qual políticos, governos e corporações agem em conjunto – de forma consciente e organizada ou não – para manter a população sob controle de forma a extrair o único recurso natural, que devido ao relativo (muito relativo) sucesso da raça humana – é abundante hoje em dia e não escasso (como o petróleo, minérios, madeira e água potável, por exemplo) – a força de trabalho e a criatividade humana.

Escassez e abundância são dois fatores determinantes para tudo que existe em nossa realidade em comum, na qual estamos todos inseridos, onde todo ser vivo tem seu sentido de auto-preservação e perpetuação, em uma constante busca por prazer e realização de sua vontade, e evitando a dor e o sofrimento. Parece óbvio não?

A sensação de prazer e realização está diretamente relacionada a um sentimento de abundância, seja de saúde, vida social (família, amigos, namorada), bens materiais e conforto, e sim, tempo para desfrutar a vida (ah, final de semana, feriados, férias!).

Já a dor e o sofrimento tem muito a ver com privação e necessidade, que por sua vez gera medo e ansiedade frente à escassez – de saúde, vida social, bens materiais, tempo livre.

escassez é o princípio que rege o valor das coisas em nossa sociedade, o medo é a força motriz que alimenta tal senso de escassez em relação às coisas, real ou não, que pode ser utilizado com facilidade como subterfúgio para manipular ou mesmo gerar uma situação.

Pense a respeito sobre o efeito do contraste medo e escassez VS felicidade e abundância.

É provável  que isso faça surgir em você uma sensação de necessidade e escassez frente a realidade de medo, quando comparada a um estado de felicidade.

Por exemplo, imagine uma situação imaginária: você volta cansado do trabalho ao fim do dia, liga a TV, abre o jornal ou ouve o rádio (se você tem mais que trinta anos, provavelmente você ainda ouve rádio de vez em quando. Caso contrário, você pode estar se até mesmo se perguntando… “Quem ouve rádio?”).

As notícias não são nada boas. O tema é sempre o desemprego, a inflação, a queda na bolsa (pra que diabos insistir nessa idéia depois do que aconteceu na década de 30?), a violência, crime, e para os mais interessados na vida alheia que em seu próprio (desperdício de) tempo, as notícias sobre a vida das celebridades. Nos intervalos, há uma infinidade de ofertas de produtos e serviços, como seguros, automóveis, alimentos, celulares e tudo o mais que sugere a possibilidade de uma vida melhor e mais fácil, apenas por…

Não menos importante é notar a competitividade como força motriz para o desenvolvimento humano em suas diversas esferas. Há  até mesmo quem defenda a idéia de que somente as grandes guerras impulsionam avanços tecnológicos significantes. Mas será mesmo que Einstein pensou que o trabalho de sua vida culminaria em Hiroshima e Nagasaki? Ou que Santos Dummont e os irmãos Wright estavam planejando construir uma máquina de guerra voadora? Ou estariam eles ingenuamente colocando sua criatividade na busca por um sonho? Sonhos “banais, infantis e fantasiosos” como energia limpa infinita e a possibilidade de vôo para macacos que desceram de seus galhos?

Por outro lado, é notável o avanço em áreas como a Informática e a Comunicação (principalmente o advento da internet) realmente abrem portas para o pensamento livre, a liberdade de expressão e a colaboração online (esses últimos seriamente ameaçados por planos como o SOPA e o PIPA); em contraste com o óbvio retardamento (sim, retardamento) da pesquisa e avanço em áreas como energia alternativa e abundante (solar, eólica, etc), devido em grande parte à falta de interesse, para não dizer conflito de interesses de governos e indústrias (petroleiras, automobilísticas, o lobby envolvido, etc) em relação a fontes de energia sustentáveis, em uma situação na qual sustentabilidade tem sido um conceito muito utilizado em vão por empresas, instituições bancárias (o que entidades que vivem de débito e juros tem a ver com sustentabilidade afinal de contas?), e pasmem… montadoras, petroleiras e mineradoras aderiram ao lema. Sustentabilidade virou moda, termo técnico vazio de significado em marketing, como subterfúgio para manter o status dessas perante o olho público e o valor alto para produtos escassos (recursos naturais finitos).

É urgente também perceber o urgentismo (é uma palavra?) incutido na rotina de pessoas, empresas e tudo o mais. O importante é correr, estar “na correria”. Atrás do quê?

“Na sociedade contemporânea, somos treinados desde a infância a viver com pressa. O mundo, como somos induzidos a acreditar, tornou-se um container sem fundo de coisas a serem consumidas e aproveitadas. A arte de viver consiste em esticar o tempo além do limite para encaixar a maior quantidade possível de sensações excitantes no nosso dia-a-dia. Essas sensações vêm e vão. E desaparecem tão rapidamente quanto emergem, seguidas sempre de novas sensações a se perseguir. A pressa – e o vazio – é fruto disso, das oportunidades que não podemos perder. Elas são infinitas se acreditamos nelas.” – Zygmunt Bauman

Também é possível ouvir o eco de Schopenhauer na voz de Bauman quando Schopenhauer afirma que: “O Mundo é minha Vontade. O Mundo é minha Representação” – frase de fazer inveja até mesmo a Neo, de Matrix.

Além do mais, em um mundo onde tudo é urgente (que requer ação ou medida imediata), o que não é urgente?

Urgente torna-se banal, torna-se regra. Vejamos alguns exemplos fictícios (uns mais que outros):

Um asteróide de enormes propoções se dirigindo à Terra a uma velocidade superior à barreira do som é urgente, pelo menos para os terrestres.

Um diagnóstico de uma doença em um ente querido é urgente para os familiares e amigos.

Saber se o presidente da companhia prefere o café com uma ou duas colheres de açúcar também é urgente, mais ainda aos olhos daquele puxa-saco.

Em seu dia a dia, pode ser urgente que você entregue o relatório antes das dezessete horas para aquele chefe que passou a manhã inteira navegando na internet, saiu para almoçar com um cliente às onze da manhã e voltou às quatro da tarde, a tempo de te pedir para preparar o relatório “com urgência”.

Saber que um jogador de futebol está com problemas de saúde e vai se aposentar antes que o esperado, também tem caráter de urgência para o torcedor fanático, e mais ainda para o clube que lavou milhões na aquisição do passe do atleta.

A realidade realmente pode ser relativa no que se refere ao quê realmente é “urgente” em sua vida.

Esse urgentismo, a expectativa, a ansiedade, o medo generalizado são fatores usados para manter governos no poder, instituições financeiras e religiosas – ou religiosas e financeiras  – em suas posições estabelecidas às custas de clientes e fiéis, ao passo que mantém o indivíduo em um estado de “suspensão do juízo” permanente frente a tantas outras coisas de caráter “urgente”.

Esse senso de escassez – de dinheiro, de oportunidades, de tempo, ironicamente alimenta uma forma de pensar, de viver, no qual apenas o que é escasso tem valor. A velha lei da oferta e demanda. Talvez em algumas décadas isso mude, se itens como água e ar – tornarem-se escassos – justamente por esse senso de escassez que move tudo e todos.

Me veio à mente uma visão aterradora. Se a Guerra do Petróleo, sim estou falando do Iraque – desculpem-me os Americanos Republicanos radicais – gerou tanta repercussão e horror, a Guerra da Água Potável vai fazer esse evento parecer uma frivolidade. Isso sim, dá medo. Ao passo que o petróleo sustenta uma invenção do homem – a sociedade contemporânea e toda sua estrutura – desde a principal fonte de energia utilizada no transporte, a instituições financeiras, cuja função é basicamente gerar lucro e criar(!) débito; a água sustenta a vida. Ao comparar as duas coisas, é espantoso como a Guerra do Petróleo de repente se torna banal.

É notável também uma crescente sensação de inadequação e inaptidão do indivíduo VS sociedade –  fomentadas fervorosamente por grandes corporações e instituições voltadas ao mercado profissional (que não merecem o título de Educacionais), no qual o indivíduo em si torna-se seu próprio produto, com a introdução de conceitos como itens “indispensáveis para seu progresso”. como uma estratégia infalível de “marketing pessoal”, um anúncio invejável (Curriculum Vitae, sem um você não é ninguém), e embalagem impecável, ou seja, parecer ser é mais importante que ser – em todos os sentidos.

Isso é visível em revistas e campanhas publicitárias onde são anunciados corpos idealizados, uma vida que nem de longe denota qualquer tipo de privação ou dificuldade, a cultura do sorriso perfeito, o culto às celebridades, e todo o universo do glamour e do status que sustenta o senso de inadequação do indivíduo perante uma suposta “realidade ideal”.

E mais atualmente, seu perfil no Facebook e outras redes sociais onde você mantém em seu “network” quase 3000 amigos, ainda que só conheça de fato, doze. Onze, depois que aquele amigo te excluiu porque não gostou que você publicou a foto dele com uma ex-namorada que ele conheceu no Facebook, com quem saiu durante dois meses.

O conceito de redes sociais em si não é de modo algum um problema. É simplesmente um meio, uma ferramenta de convívio social. Redes sociais apenas refletem o modo de vida de uma sociedade inteira, que prefere a presença online e 140 caracteres, um botão “curtir”, e “compartilhar”, à presença física e uma conversa de qualidade. Talvez pela segurança oferecida no modo “conectar e desconectar”, onde não há o compromisso de se expor mutuamente (e assim colocar-se em situação vulnerável) ao discutir uma idéia qualquer que seja.

É importante mencionar também como somos induzidos a buscar sucesso e vencer na vida a qualquer custo, em uma busca desenfreada por reconhecimento, na forma de dinheiro, bens materiais e status social; e aptidão, onde um bom caráter é secundário e muitas vezes até irrelevante em relação à sua “experiência profissional” e “grau de especialização”. Um produto que consome outros produtos (inclusive outros produtos humanos como ele).

Note que a crítica não é em relação ao trabalho humano em si ou na busca por aperfeiçoamento em uma determinada área, que é louvável em si, mas ao propósito do emprego da força de trabalho e criatividade de um indivíduo, que é em suma, a capitalização de recursos humanos em prol do progresso e do desenvolvimento não primariamente para o indivíduo propriamente dito, mas para seus empregadores e contratadores, que diretamente ou indiretamente servem a companhias multinacionais e governos, os quais são codependentes em seus interesses, que por sua vez trabalham para se perpetuar no mercado e no poder, muitas vezes sem maiores contribuições à sociedade como um todo e muito menos para indivíduos em si.

Qualquer brasileiro está ciente deste fato ao observar o quadro político do país em relação à indústria automotiva, por exemplo – a meu ver uma das mais nocivas ao desenvolvimento de fontes de energia alternativas e/ou outros meios de transporte mais econômicos e menos agressivos ao meio ambiente. Tais companhias são bem vindas por oferecerem oportunidades de emprego e desenvolvimento tecnológico ao local onde vai se instalar, em troca de “benefícios fiscais” e a mão de obra barata local, gerando uma codependência entre a companhia e seu staff de “colaboradores”, ou seja, a comunidade local, em nome do “progresso”.

Para ilustrar, veja um mapa da rede ferroviária do Brasil e compare com um mapa da rede rodoviária. Não seria mais racional investir em linhas ferroviárias?

Também é útil fazer um breve cálculo sobre o custo de seu veículo e seus gastos. IPVA, Seguro Obrigatório, DPVAT, combustível, multas, seguro particular. Adicione as tarifas de estacionamento, dos pedágios nas vias concessionadas (não sou advogado, mas isso a princípio não fere o direito de ir e vir?)

É um ecossistema enorme onde todos ganham. Governo, montadoras, petroleiras, concessionárias, e só você perde.

Uma idéia que para mim é um absurdo na minha opinião de leigo, é a seguinte:

Para que serve um Governo (que supostamente devia ser responsável pela manutenção das estradas e vias públicas, uma vez que isso faz parte do IPVA), que repassa a responsabilidade para concessionárias como a Ecovias, que fazem a manutenção das vias (como nenhuma rodovia federal ou estadual tem, diga-se de passagem), mas cobram uma tarifa de R$18,50(!) em um único trecho (Anchieta-Imigrantes)?

Apesar de tudo, a indústria vai bem, graças também a quem quer comprar aquele carro 0km o ano que vem e pagar um valor irracional pelo veículo, fora as taxas, impostos e tarifas relacionados a esse.

O trabalho nesse contexto, onde ele serve a um mecanismo social-político-econômico que o mantém dependente – e não seria exagero dizer escravo – não dignifica o homem, é um fator de alienação, como percebeu Marx, que acertou nesse ponto – uma vez que em seu tempo escasso (há até mesmo quem ache bonito não ter tempo pra nada), inclusive não tem tempo para a reflexão crítica de seu próprio entendimento sobre o mundo, uma vez que está sempre em busca de especialização e qualificação para se manter no mercado profissional, onde as oportunidades… adivinhou! – são escassas – e disponíveis apenas para os mais qualificados neste nosso Admirável Novo Mundo e suas alphavilles.

É interessante notar que o conceito de Qualidade e Controle da Qualidade do Processo é bastante utilizado nas indústrias para classificar e produzir peças e componentes que estão dentro das especificações e requisitos de um determinado fabricante. Peças dentro dos limites de controle e especificação seguem para o passo seguinte da linha de produção, e peças fora dos limites de controle e especificação são recicladas ou descartadas.

Qualquer semelhança com nossa “sociedade de consumo”, não é mera coincidência, infelizmente.

Por exemplo, você que adere a um estilo de vida mais simples, não conta com as miraculosas linhas de crédito, não optou por um cartão de crédito “Gold” ou “Platinum”, não movimenta capital, ou se movimenta o faz através de dinheiro apenas (algo virtualmente impossível atualmente, não pela questão da praticidade, mas por questões de rastreabilidade), está discretamente descartado. Não está dentro dos limites de controle. Você não passou no Controle da Qualidade.

Até então foi contemplado apenas o que diz respeito à esfera do aqui e agora, da realidade material. O quadro geral parece ainda pior quando consideramos uma possível via de crescimento espiritual e de (no mínimo ) consolação, e nos deparamos com grupos religiosos extremistas, para os quais as leis impostas sobre eles hão de ser válidas para todos os outros – em uma evidente perversão do pensamento de Kant e seu princípio de verdade universal, e até mesmo a perversão do preceito básico de toda e qualquer religião, que simplesmente consiste em uma conduta ética e moral para se viver em harmonia com si mesmo e com o todo (alguns dizem Deus, Alá, o Espírito, Deuses, Grande Deusa, e outros simplesmente dizem Amor) e certamente em conformidade com o conceito de Controle da Qualidade humana.

É degradante observar a completa falta de respeito para com o próximo sob a forma de agressões e privações nas mais diversas formas – desde a idéia do dízimo a atos como quebrar aos pontapés os objetos que simbolizam o sagrado para muita gente – como no caso Edir Macedo VS Catolicismo.

Visto isso, a intolerância religiosa é em si um absurdo, no sentido lógico formal da coisa.

Mais que isso, o mecanismo é basicamente o mesmo em instituições religiosas desse tipo. Medo e escassez. Pressupõe-se que o indivíduo não está, mas é a priori um condenado, e deve ser absolvido por intermédio de um ministro, padre, pastor ou doutrina, reservada aos privilegiados, a uma elite seleta, que deve guiar (ou impor a) os iniciados em sua jornada de absolvição e salvação (de quê? qual é o pecado original? Seria esse o conhecimento?)

E em uma realidade em que medo, escassez, angústia e ansiedade estão sempre presentes (e até reforçados em algumas vertentes religiosas) há um mercado abundante para quem oferece um pouco de consolação e/ou salvação em troca de aceitação incondicional de uma Verdade, e alguma caridade à instituição, junto a um serviço de marketing livre de qualquer custo, sob a premissa de que tais atos são em si, um “investimento a longo prazo” – uma vida, uma alma dedicada ao serviço e à propagação da palavra de uma instituição, que supostamente detém a autoridade sobre toda e qualquer virtude humana e a bem aventurança na vida e no pós-vida.

Mais trágico ainda é o fundamentalismo religioso, como a suposta jihad da Al Qaeda VS Sociedade Judaico Cristã do Império Norte Americano. Ok, este é um tema bastante controverso até hoje, em relação ao suposto envolvimento da Al Qaeda no atentado de 11 de setembro ou um mero bode espiatório para os interesses de uma minoria elitista (talvez de ambas as partes) para obter controle sobre… isso mesmo, um recurso natural em escassez – petróleo.

A religião, que poderia então servir como consolação à angústia existencial e às aflições do dia a dia, é transformada também em mercadoria por instituições e indivíduos visando ganho material, visibilidade e/ou ambos.

Ser livre também significa escolher suas crenças, o que não é apenas um privilégio, mas um direito. Com um pouco de respeito, tem espaço pra todo mundo. Sim, acreditar em abundância é melhor que acreditar na escassez, desde que ambas estão sujeitas à percepção do indivíduo ante a uma realidade apresentada, enquanto o mundo é mera representação, de acordo com Schopenhauer e  “compartilhada” (termo bem Facebook) pelo movimento existencialista na Filosofia.

Portanto não é frutífero discutir religião em si, desde que praticantes de uma religião ou outra mantenham suas crenças para si, sendo que a Verdade é para todos, independente de qual seja essa para você ou para seu vizinho. Até o Ateísmo, que nega a existência de Deus, não deixa de ser um sistema de fé. Uma fé construída sobre os paradigmas da ciência e da racionalidade humana.

Discutir religião sob um ponto de vista racional e lógico, seria abrir mão do mistério e do sagrado em detrimento a uma verdade absoluta, universal, porém não palpável, não verificável e não falseável (se vista sob a perspectiva de Thomas Kuhn).

Ao passo que a própria Fé – (do Latim fides, fidelidade e do Grego pistia) é a firme opinião de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério, objetivo de verificação, pela absoluta confiança que depositamos nesta idéia ou fonte de transmissão – torna-se adversária de certa forma, a qualquer possibilidade de investigação, de reflexão crítica, ainda que ao mesmo tempo refúgio para uma consolação, uma certeza em um mundo de incertezas.

No campo político-social também é importante sustentar o Estado laico, ou seja, neutro em relação às questões religiosas. É até mesmo perigoso permitir que instituições religiosas se infiltrem no Estado favorecendo políticos adeptos a uma determinada religião e vice-versa, uma vez que isso abre portas para uma doutrinação (mais disso ainda?) totalmente irrelevante no sentido prático da convivência social. Mas graças a Deus, isso não acontece no Brasil, não é mesmo?

Se formos pessimistas na abordagem, podemos concluir que na melhor das hipóteses, estamos fu… por todos os lados.

Porém com um pouco de boa vontade e uma boa dose de reflexão, podemos simplesmente escolher mudar.

Vamos direto ao ponto.

A intenção aqui não é gerar mais medo, preocupação e ansiedade (indignação, insubordinação, e questionar as instituições e suas “autoridades” são efeitos altamente desejáveis, no que diz respeito a buscar outras alternativas de realidade que vivemos em comum – sociedade).

A idéia básica do que está sendo proposto é reunir pensamentos, filosofias, Filosofia e questionamentos acerca dos mais diversos temas que sejam fonte para reflexão na busca por possíveis vias alternativas para o auto conhecimento e a transformação individual enquanto realidade subjetiva, ou seja, na forma como se percebe a si mesmo e o mundo, que por sua vez pode gerar uma mudança significativa na realidade percebida em comum acordo – a sociedade.

A intenção é disponibilizar um conteúdo acessível e com a linguagem mais simples possível, sem “filosofês”, “psicologuês”, ou termos técnicos além do estritamente necessário para expressar as idéias, dentro das limitações dos autores do site. Às vezes é realmente difícil explicar um conceito sem apelar para termos específicos no contexto. Vide Hermenêutica; porém também é prudente observar que certos artifícios de linguagem favorece somente a uma suposta “elite do saber”; cuja motivação última é manter o controle de qualidade de textos produzidos em relação a uma suposta “interpretação de texto correta” a fim de favorecer exatidão.

Na verdade, tudo o que te faz pensar e refletir é válido. Visto que não há necessidade de uma verdade absoluta, porque não incentivar a criação de uma verdade pessoal em contrapartida?
Ninguém, abolutamente ninguém é dono da verdade. Sejam padres, cientistas, filósofos, psicólogos, matemáticos, físicos, e o autor desse artigo.

Ainda que o preceito máximo de que “…sua liberdade termina onde começa a do próximo” é extremamente válido. Inclusive para religiosos e doutrinados fanáticos que impõem sobre si e sobre outros uma verdade alheia – da interpretação do pastor, padre, doutor, psicólogo, filósofo, linguista, biólogo evolucionista, etc.

TUDO é uma questão de diálogo e troca de idéias. Ou não.

Em nossa rudimentar forma básica de comunicação enquanto civilização – linguagem oral e escrita, sons, imagens, símbolos – tudo é limitado e subjugado à interpretação de um segundo e /ou um terceiro.

Cabe a cada um criar e recriar sua própria realidade interpretativa, sem necessidade de “autoridades”. (Por mais que digam que isso é necessário, no fundo tal “necessidade” é apenas o resultado de uma projeção de expectativa ante a uma nova perspectiva).

Por isso, que além do âmbito social, é importante também abordar questões pessoais, estritamente pessoais. Talvez até mesmo mais importantes para a criação de uma realidade subjetiva ante a uma realidade imposta.
A vida em si sob os mais diversos aspectos. Trabalho, relacionamentos, espiritualidade, criatividade, e por aí vai.

O conceito apresentado é fundamentado em um preceito bem simples:

Só você pode mudar a sua vida. Só você pode transformar sua realidade. E só assim você pode transformar a realidade que temos em comum, se assim o desejar. O único problema é que a realidade em comum – a sociedade – pode não querer ser mudada, assim como pode te excluir (às vezes permanentemente) se incomodada demais.

Porém, ao melhor estilo Gandhi, é possível escolher não participar dessa realidade, em uma resistência passiva, a ponto de transformá-la. Não acredita?

O que acontece a um banco quando não tem clientes?

Se um candidato é eleito com 5% de aprovação versus 90% de votos nulos (não contabilizados, ou simplesmente ignorados); isso constitui uma democracia?

Se em um determinado ano fiscal, 85% dos “contribuintes” fossem inadimplentes por opção (e reação), o que aconteceria?

Se 70% da produção das grandes montadoras ficar no pátio, o que vai acontecer?

“Mas não é isso que acontece na realidade” é a única resposta (evasiva) de muitos, mas qual a resposta para tais questões? Tudo depende de você, no final das contas.

E qual realidade? A sua? A minha? A dele? Ou a de todos nós?

E ainda assim, mesmo inserido nessa realidade em comum, onde você é apenas parte de um todo muito maior, é possível manter uma realidade subjetiva onde quem tem o controle sobre o que é mais importante na sua vida não é nada e ninguém a não ser você mesmo.

Isso é livre arbítrio, uma das melhores coisas da vida, e é de graça!

Afinal, nas palavras do filósofo utilitarista John Stuart Mill – “… é preferível ser um Sócrates insatisfeito a um tolo satisfeito”.

Ainda que tenham muitos que acreditam que a “ignorância é uma bênção”.

Como sempre, você escolhe em quê acreditar, ainda que há quem acredite no inverso e prefira uma existência alternando entre os papéis de doutrinador e doutrinado, agressor e vítima, consumidor e produto, subjugado entre o bem e o mal no jogo da vida, do crédito e débito financeiro e do crédito e débito com “o Criador”, porque… “não é assim que as coisas são”.

Mas em última análise, as coisas não são o que você faz delas? E se realidade é a realidade de comum acordo, quem a constrói e a sustenta? “Todos nós”, não seria a resposta mais óbvia?

Mas se você acredita que é possível escolher o quê você acredita, e quem você quer ser, e o que quer para sua vida, a intenção aqui é oferecer ferramentas e informações que podem ser úteis para ajudá-lo em sua reflexão sobre o entendimento de si mesmo e o mundo, não um conjunto de regras de conduta e valores morais a serem seguidos à risca.

Muito pelo contrário, é um ponto de encontro para quem busca mais autonomia e liberdade de pensamento para uma possível evolução de consciência e desenvolvimento pessoal ante a uma realidade que é degradante em si quando submetida a uma reflexão crítica, que por sua vez também não passa de uma ferramenta entre outras  na complexidade do maquinário da existência humana (reduzida à condição de peça de um maquinário?).

Afinal, quem precisa de pastor é cordeiro, cujo destino é ser servido ao molho de hortelã. (Desculpe o trocadilho, sem ofensa, não resisti).

Lembrando ainda que todo o conteúdo do site é de opinião pessoal do autor do mesmo, que foi criado com o único propósito de enriquecer sua experiência enquanto ser humano pensante, livre e com um potencial criador infinito, em suas diversas áreas de interesse – não necessariamente vinculados a nenhuma área do saber (Matemática, Física, Biologia,  Filosofia, Psicologia, Religião), e totalmente a serviço de seu potencial criador/criativo enquanto ser humano, que acredita que:

Sim, tudo pode ser melhor para todo mundo.

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6 responses to “Angústia, Ansiedade e Medo na Realidade Percebida

  • Tiago Cesario

    Não sei exatamente o que dizer. Estou meio perplexo, feliz e ainda digerindo tudo o que está escrito, gostaria de dividir o texto em muitas partes e comentar cada uma delas. Acho que estamos no caminho de construir algo maior, acredito realmente que possamos fazer mais do que estamos fazendo e que isso deverá gerar resultados. Parabéns, espero retomar estas questões ao vivo em breve. Abçs

    • Walks No Road

      Então Figo,

      Este artigo é um “catadão”, um esboço para o ponto de partida para aquele outro site, o Vita Veritas. Depois que nos falamos fiquei empolgado para finalmente organizar o conteúdo e começar a fazer algo. Também ver minha namorada e uns amigos passarem por essa angústia (ansiedade, pânico) foi um fator de motivação. Eu na minha simpricidade, quando algo me incomoda muito, mando tomar no * e beleza. Mas parece que isso não é sempre possível para muitos (pelas circunstâncias da vida de cada um, não pela vontade).
      Sei que há muitas idéias e que podem ser divididas em muitas partes diferentes, mas é que eu precisava partir de um ponto e “fui fondo”, rs.
      O próximo passo é abordar possíveis outras vias, para encontrar soluções, nem que seja apenas no ambito privado como início. (Algo como colocar um tijolo de cada vez). No meu ponto de vista, no momento é mais importante reunir conteúdo que gere reflexão que encontrar uma “verdade” ou conjunto de “verdades” de conduta ou ética. (Se bem que um boicote geral a bancos, governos e corporações, poderia ser interessante para um ponto de partida livre de “bagagem”).
      Enfim, quando eu conseguir colocar tudo em prática, gostaria de tê-lo como autor também, não apenas comentador, se assim o quiser e puder.

      Abração,

      D.

  • Julius Gonçalves

    Caraca Denis!!! Vc tá foooooda demais velho, que orgulho! Cara, cada vez mais tenho carregado, difundido e tentado viver a essência desse discurso que acabei de ler aqui. Respeitando minhas limitações e medos, mas desafiando-os, estou cada vez mais percebendo que podemos sim viver em abundância, abundância de amor, que a única escassez real que temos (na minha realidade pessoal) é a de coragem. Tenho lido tanta gente repetindo esse discurso, essa busca por um outro modo de ver a realidade, tenho convivido com tanta gente que pensa assim e que está buscando isso, tem alguma coisa acontecendo, dá pra sentir, dá pra intuir. Tem algo crescendo dentro da gente e está pra explodir, e a pressão do sistema pra abafar isso através do medo, da cobrança, da ansiedade, da urgência não está mais dando conta, parece que o amor está buscando as frestas no concreto pra crescer e invadir. Fiquei muito feliz com esse texto e me motivou a procurar a sua fantástica companhia novamente, quem me falou desse post foi nosso querido Figão, que eu encontrei no aniversário dele e que como sempre me encantou pela simplicidade, dignidade e sabedoria que lhe são característicos, além disso me comoveu pela família linda que construiu, que parece ainda mais iluminada agora com a chegada do Chicão.

    • Walks No Road

      Agradicidis pelo comentário, Julius!
      Eu ainda não encontrei tanta gente nessa vibe. É normal ver gente que pensa igual, mas que não age de acordo, ou que ao menos adote uma postura que seja condizente com essa visão de mundo mais light, ainda que mais crítica.
      Mas claro, isso tudo ainda é por causa do medo geral que rola (survival VS bem-estar), e é reforçado por “peer pressure”.
      Enfim, gente que diz que “não é assim que as coisas são”, e muito raramente com alguma razão – razão no sentido da coisa em si, como racionalidade mesmo.
      O lance é encontrar gente como a gente, ao menos pra contrabalancear o que despejam em nós todos os dias. Carreira, mídia, economia, planos de governo, e outros tipos de conhecimento inútil, quando se busca um viver bem genuíno; não “produtivizar” sua vida.
      Às vezes me pego de pá virada, com raiva só de abrir uma revista por exemplo, ou mesmo só de ver a capa. Quanta coisa inútil. Parece (?) que o mundo é movido por vaidade, dinheiro, status e fofoca.
      Quero saber coisas como “Como viver uma vida sem ter uma conta bancária”, “Livre-se do cartão de crédito”, “Abaixo a nota fiscal paulista (EVIL)”, “Por que comprar um carro 0km é cagada”, “Não pague Pedágio: Vias alternativas para Ecovias e Via Oeste” e outras coisas que realmente iam facilitar minha vida (isso só pra falar no money).
      Quanto à “matemática da dinâmica social”, e à querida família do Figão (tô devendo ainda conhecer o Chicão, mea culpa), acho que gente boa + gente boa = gente boa!
      Porém tenho conversado com o Figo sobre fazer algo que motive a gente mesmo a aprofundar essas idéias, gerar uma discussão, buscar outras maneiras de viver a vida, etc (inclusive esse post também foi motivado por uma de nossas conversas).
      O objetivo é reunir gente que reforce a idéia de que é possível sim viver com outros valores, outra rotina, outra realidade, que não inclui corporações e carreiristas, governos e instituições financeiras, instituições religiosas-financeiras, e sem descambar pro estereótipo “hippie-louco-bicho-do-mato”.
      Também tenho saudades dos bate-papos, ainda mais daqueles Ilha Comprida – barraca – fogueira e violão – style – quando a gente era ainda (e ainda é, eu acho!) um bando de moleques tentando encontrar um significado para as coisas todas, digo, as que realmente importam.
      Tenho algumas idéias.
      A gente precisa marcar um bate papo e fazer um lance bem legal, tem muita coisa pra gente discutir, sobre o que é possível ser feito.

  • Tiago Cesario

    Caros camaradas, o negócio é canalizar essa energia, sabedoria, boa vontade e ideias para a construção de algo. Não sei bem o que e cada vez que penso acabo com mais dúvidas do que respostas, o que não é nada mau, mas que também não ajuda a convergir para lugar nenhum. O Julius me ligou logo depois de ler o texto e acho que não devemos perder a empolgação. Sei que nossos horários nem sempre se cruzam, mas acho importante que marquemos algo para conversar, fritar a cuca, dar umas risadas e botar o bonde na rua, seja lá como for.
    Quanto à ideia de ser um escritor no site Denão, já to dentro. Aliás fiquei pensando se a gente não poderia unir os blogs através de um site, ou alguma outra plataforma para nos dar certa identidade.
    Abraços calorosos a vocês.

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